Mensagem Poética

"Sê bom. Mas ao coração prudência e cautela ajunta. Quem todo de mel se unta, os ursos o lamberão" Mário Quintana



Olá! Meu nome é Andréia. O objetivo desse blog é publicar as redações dos meus alunos, bem como ser um espaço de interação e construção do conhecimento acerca da literatura e do mundo da escrita.

E-mail: amoportugueseespanhol@gmail.com

sábado, 9 de março de 2013

Novo ano, novo desafio

       Mais um ano letivo se inicia e com ele um novo desafio. No ano de 2013 irei trabalhar com turmas de 1º ano do ensino regular, orientando-os nas disciplinas de Português e Produção de Texto. Após duas semanas de aula, já percebi que meus novos alunos têm muita energia e são muito inteligentes. Meu desafio é ajudá-los a transformar esse potencial todo em aprendizagem. No 1º bimestre já estamos trabalhando com os conceitos de linguagem e iremos dar uma ênfase maior na linguagem literária e no início da literatura portuguesa para entendermos melhor a origem da literatura brasileira. Uma vez que fomos colonizados por portugueses, é importante que conheçamos a origem da literatura ocidental e a nossa própria história para entendermos como a nossa literatura se formou e de que forma ela contribuiu para a formação de nossa identidade. Espero que seja uma ótima viagem.... Sejam bem-vindos os novos alunos.  Formas de avaliação para o bimestre:
  • Redação: 2,0
  • Prova: 3,0
  • Participação: 2,0
  • Trabalho: 3,0
Atenção: A redação acontecerá no dia 26/03 e será a nossa avaliação intermediária. Será escrita a partir da função emotiva da linguagem. Abaixo, o texto que servirá de inspiração para a redação. Estudem!


O valetão que engolia meninos e outras histórias de Pajé
Kelli Carolina Bassani


Já foram escritas muitas histórias da época em que os meninos engraxates eram engolidos pelo valetão da Rua Sete de Setembro. Mas nenhuma delas conta esta ou outras histórias de Pajé. Guardo-as dentro do peito, como boas lembranças da rua onde vivi e que teimam em se misturar com a história da cidade.
Nascemos juntos: eu, a rua e essas histórias. Somos uma coisa só, mas nós não estamos nos livros. Estamos na contramão, por isso me atrapalho com as palavras. Às vezes falta ar, outras o ar é demais, então o meu coração acelera, o nó na garganta avisa: o menino Pajé vai acordar!
Hoje, quem não conhece a Rua Sete de Setembro é porque não conhece minha cidade - Toledo. Apertada entre outras no extremo oeste paranaense, bem pertinho do Paraguai, surgiu de uma clareira no meio da mata.

Naquele tempo, uma clareira; hoje, Rua Sete de Setembro. Essa rua foi crescendo e acolhendo o progresso que tenta esconder e aprisionar as histórias de Pajé. Elas estão descansando embaixo do calçamento, dos asfaltos, dos prédios, das casas. Basta um sinal que elas voltam.
Cheiro de terra molhada - esse era o sinal. E, ainda hoje, sinto esse cheiro entrando no meu cérebro e mexendo com o meu coração. Naquele tempo bastava sentir o cheiro de terra molhada para que nós, os meninos engraxates, escondêssemos nossas engraxadeiras - caixa de madeira em que se guardava o material necessário para engraxar sapatos - no porão dos fundos da bodega do Pizetta e, como garotos matreiros, saíssemos de mansinho, sem despertar curiosidade. Corríamos lá embaixo, no começo da rua que embicava no meio da mata, pois o mistério ia começar!

A chuva caía e formava muita enxurrada que, com sua força, trazia a terra misturada. Parecia uma cascata de chocolate que despencava no valetão - buraco muito profundo provocado pelas enxurradas, erosão. A água fresquinha que caía do céu misturava com a terra quente e provocava o mistério. Nós éramos puxados para dentro daquele enorme buraco por uma força estranha sem dó. Mesmo os que não queriam não conseguiam resistir, porque a magia era muito forte e, em poucos segundos, estávamos lá dentro, na garganta do valetão, onde brincávamos durante horas. Nessas horas o trabalho era esquecido.
Quando eu era menino, trabalhava muito. Todos os dias de manhã ia à escola e, ao retornar, mal acabava de almoçar, pegava a engraxadeira, colocava nas costas para a rua, quer dizer, para o trabalho. A engraxadeira era muito grande e pesada para meu tamanho - eu era apenas um garoto! Mas era a única forma de ajudar minha mãe no sustento da família.

Sentia como se estivesse carregando o mundo sozinho.
Hoje sou adulto e sei que aquela magia era fruto de nossa fantástica imaginação. Como qualquer outro menino, o engraxate também tinha direito de brincar. Uma das poucas vezes em que podíamos fazer isso era quando chovia. Mesmo que depois nos custasse castigos e surras.
Atualmente, as brincadeiras, comparadas com as de meu tempo, são muito diferentes. Hoje, os heróis são Superman, Batman, Homem-Aranha. Antes tínhamos heróis indígenas, com suas histórias cheias de mistérios das florestas.

Naquele tempo, quando chovia, o valetão da Rua Sete de Setembro era nosso mundo fantástico. Além das divertidas brincadeiras no lamaçal que escorria da rua, fazíamos cabanas no paredão da erosão, guerrilhas com bodoque, usando sementes de árvores como cinamomo e mamona.
Quando não chovia, sobrava tempo para brincar só aos domingos. Então, eu - Pajé - e minha turma nos reuníamos na mata, que se misturava com o terreiro das casas.
Nele, construíamos cabanas, arcos, flechas, tacapes. Pintávamos o corpo todo com barro e frutinhas da mata. Assim, sentindo-nos como heróis, brincávamos de índios guerreiros, até o sol se esconder.
Nossa vida se enchia dos poderes que vinham da mata e seguia solta, como passarinho. O fim da história? Não sei não, porque eu ainda vivo. E enquanto eu viver as lembranças nunca vão terminar.

(Aluna finalista da 3ª edição do Prêmio Escrevendo o Futuro, em 2006, 4ª série da E.M.E.I.E.F. Walter Fontana, Toledo – PR).

4 comentários:

  1. Após alguns dias lendo o blog, percebi que há uma prioridade no momento de conhecer a linguagem, o momento de conhecer a cultura,de ser inserido em sociedade , fazer da fala uma funçao emotiva,Sabe? Li as redaçoes das turma de 2012, gostei muito do que li em certas redações, vi muito o sonho das jovens escritoras, o sonho de menina de casar e ter filhos ,realmente é encorajador pra mim que amo ler, acho que teremos um otimo ano pela frente.

    NATHALIA ELISA G. NEVES - 1° D 2013

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  2. Obrigada pela sua participação, Nathália. Espero que o blog seja realmente um espaço de motivação. Seja sempre bem-vinda!

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  3. Cada vez que leio esse texto recordo-me da minha infância. De como me divertia com as brincadeiras que fazia com meus primos e colegas,como era bom! Sinceramente amei este texto! Obrigada professora.

    Vitória de Araújo Mafioletti 1°B 2013

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  4. Que bom, Vitória. É sempre bom a gente lembrar do passado e afirmar através dele a nossa própria história. Um abraço.

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